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19 novembro 2015

Just One Word or a World Full of Surprises

Um sobrolho levantado, seguido de um trejeito de lábios, os olhos cerram demoradamente porque uma pequena centelha está a queimar a mente! Descobri que o maior prazer da minha vida é ser surpreendido, provavelmente porque na minha infantil arrogância estúpida ache que já sei muito. E veja-se o quanto estou errado, enganado e na verdade eu é que sou incongruente!

Um pequeno gesto, uma palavra plantada no meio de um longo dialogo, um odor pungente que paira no ar, um raio de Sol que ofusca momentaneamente, qualquer evento que planta uma semente que depressa se transformam em rebento, para depois se transfigurar em uma arvore gigante que cresce dentro de nós, repleta de troncos, folhas, frutos, flores, vida, só depende da forma como o nosso espirito a alimenta. Estimulo delicioso, uma ideia plantada inocentemente que a nossa alma nutre em segredo. Simples como uma gota a cair num pequeno charco e que multiplica infinitamente as suas ondas.

Como uma pequena faísca nos faz reformular toda uma ideia, por vezes anos de vida, desfazendo a forma como pensamos, quase lentes bem polidas para vermos para lá do turvo do passar do tempo.

Que surpresa!

17 novembro 2015

Inverno

No inicio do inverno, um igual a tantos outros que já contaram, num lugar sobranceiro ao mundo, por entre os basaltos daquele monte, brotavam do solo, germinavam lentamente dois brotos quase envergonhados e genuinamente encandeados pelos raios de Sol, naquela manhã fria. Espreitavam sob o gelo que se tinha formado durante a noite escura, abrindo caminho em direção ao seu destino, vislumbrar a felicidade daquele dia de inicio de inverno. Cada um lutava para encontrar o seu caminho, rasgando o vítreo dos cristais de gelo, que se afastavam, como se fosse esse o seu desígnio, mas suas raízes, quase como mãos dadas, ou os corpos de amantes abraçavam-se ferreamente debaixo do solo, aproveitando cada réstea de calor que emanava das profundezas da terra, numa ligação terna, mas sedenta de vida, alimentavam-se, partilhavam os nutrientes oferecidos pela terra mãe, consumiam o elixir que corria sob a crosta, num festim de emoções e prazer, os braços, estames lançados para cima, dança fecunda, alegoria de um sorriso rasgado, profundo e genuíno, com as raízes abraçadas, escondidas do olhar da infelicidade, da inveja dos outros e ligados pelo destino.  

Olham para cima, sentiram a caricia do dia, sorrindo em cumplicidade. O Sol brilhava alto enquanto o degelo corria por entre as pedras do monte seguindo a sua fortuna. A memória daquele dia iria ser queimada pelo gelo acutilante da noite inevitável. 

11 novembro 2015

A manhã morna, que tem o dia frio e que deixa a noite quente.


Despertar, abrir os olhos, vislumbrar o tecto branco, fantasiar nuvens tênues a dançarem dentro do quarto, a cama amarrotada, os sonhos violentos que deixaram o meu corpo quente, sôfrego com a realidade lentamente a sobrepor-se á fantasia, ao êxtase do sonho enquanto as pálpebras despertam. A luz fere o espírito e o Sol despe os lençóis, deixando o corpo a temperar. São 7 e 30, o despertador ainda descansa, combinamos cumprimentarmo-nos às 9. Deixo-o dormir mais um pouco. Nas não resisto e acordo-o para saber tudo o escondeu durante a noite, o quamto o mundo girou, quantos palreiaram sem sentido, sem substância, imbuídos nas suas banalidades, quantos estão acordados, tal como eu, quantos partilharam os meus suados delírios. Quantos partilham os meus pensamentos, sentem o mesmo Sol crescente a retemperar os seus corpos, acordando da ilusão. 
A água tépida a adensar-se, a vigorar-se, corre pelo corpo cru, arrancado da pele as fantasias ou os fantasmas da noite anterior, escorrem, debatendo-se, porque não querem ser esquecidas, porque lutam deseperadamente por viverem na minha pele, entranhando-se violentamente na carne. Resticios de sonhos que são estropiados do meu ser, caindo por terra, sendo levados pelo rio do desapontamento, húmus peçonhento que conspurca o sonho, fuliguem, lama putrefacta que desce corrente abaixo. Despertar. Sentir a vida a regressar, o corpo a tilintar, eletrificado, vivo e lavado do negro de uma noite mal dormida, mais uma das muitas que já passaram, sem saudades e sem expectativa, mesmo sabendo que quado a lua regressar, também com a sua luz negra regressam os demônios. Despertar, despertar e despertar. Roupa fresca, lavada, pura, armadura embevecida, reflexo do ego.
Passo ante passo, andamento, reaprender o balanço, manter o equilíbrio sob a circunferência da Terra, ânimo, estímulo, com a luz do dia a degustar demoradamente o meu rosto, saborear com gusto os raios de Sol. Desperto.

Neste hiato tenho o espírito lavado, o corpo restabelecido e o estômago confortado. Os ponteiros saltitam, chamando a si a minha atenção, terá o tempo sido dobrado? O dia nasce, é longo, intenso e promete emoção. Os lábios explodem num sorriso. Os olhos não conseguem conter um brilho, intenso, ardente. Todo o corpo vibra de tensão. Prazer. Desperto.

Manhã agitada, agenda recheada, muita coisa, muita gente, rostos deformados com a velocidade dos ponteiros, alguns olhos brilhantes, outros tantos corpos formosos, tensão, o sangue pulsa vigorosamente, a mente gesticula de prazer numa dança eufórica. O Sol está alto, brilha sobre mim. Retemperar.

Voou, time lapse de eventos, pessoas tantas, pouco conteúdo, rostos amorfos, palavras ocultas. Tenho a boca dormente, a língua cansada e o cérebro implodido, mirrado de tanta falsidade, de tanto fingir ser, viver, de tanta mentira acreditada verdade. Retemperar. Preciso urgentemente de um estimulante, mas para já uma bebida fresca terá de servir. Fresca, para despertar os sentidos, um mergulho vigoroso numa lagoa perdida no bosque, escondida do mundo, protegida por uma neblina cega. Só minha. Para meu prazer, delícia egoísta que não partilho com ninguém. Sabe bem, sinto o corpo a crescer e o espírito a despertar.

Olho em volta, tudo é estranho, feio, putrefacto, janelas escuras, sujas, fachadas cobertas pelo tempo, idosas, decrépitas, de cores indecifráveis, calçada curruspucada, pisada por sombras fugidias, fantasmas numa cidade abandonada, esquecida do mundo, longe da alegria, desprovida de qualquer réstia de brilho ou felicidade. Um negro que consome, absorve-me. Uma nuvem, augúrio de tempestade e pestilência. Não sou daqui, não pertenço, não quero mais, recuso ser transformado numa das tantas sombras que palminhas estes esconços. Quero viver! Quero algo diferente e longe disto, deste cheiro de morte, deste pântano infernal que suga, mastiga e consome tudo, toda a luz, toda a emoção, toda a vida. O fogo a ser soprado por um vento bafiento. Fujo, corro, deseperadamente, desenfreadamente. 

Abrir os olhos, escancarar e avidamente procurar. Vou retirar-me, rearmar-me, lavar os olhos, o corpo e a alma. Ânimo, o dia ainda caminha. 
Depois de mais um banho, agora breve, para retirar o sarro, diluir as teias dos fantasmas com que esbarrei. Água quente, limpa, branca, lâmina que raspa o musgo morto. Pureza.

A noite aproximar-se suave com promessas de lascívia, ardor quente,  com perfumes inebriantes, com corpos femininos que exalam desejo, prazer, tensão e tesão. Dançam os olhares, tiram-se medidas, projetam-se lábios carnudos, arrebitam-se os rabos, retesam os mamilos, sente-se o calor húmido dos sexos, o desejo e a luxúria. A fricção dos corpos eletrifica o ar pesado, o hálito quente e doce inebriante promete orgasmos. Música sincopada, ofegante, mosto doce a correr pela garganta depois de ter beijado secretamente os lábios, olhar vivo, brilhante, libidinoso, concernente aos sentidos, fome, apetite, concupiscência, gozo.  Mãos irrequietas, bocas ávidas, ansiedade deliciosa, pernas que resvalam no corpo abrasador a procurar o rubro, delicia-se demoradamente, intensamente, febrilmente. Cantos escuros que ocultam as formas sem conseguir esconder a tesão, o calor exalado, o cheiro lascivo, a sensualidade que transpira. Rebolar pelas paredes, roçar em todas as arestas, acutilante, dormentes. O frio da noite não se sente, os corpos fumegantes, procuram qualquer recanto, as mãos esmagam-se e negam o desprendimento. Luz ambar de um qualquer velho candeeiro mostra os olhos semicerrados, a boca pequena, ávida, tempestiva, cabelo denso, ruivo, chamas,  invocação de prazer. Vozes distantes, luzes ténues, cidade ausente. O fogo arde endiabrado, escorre sensualidade, deleite, delícia, gozo.  A casa não está distante, voam ébrios de desejo, sedentos, esfomeados de essência, famintos de vida. Todos os passos retemperam o prazer, esfaimados. A porta fechada serve de cama, o corredor, o chão e as paredes de alcova, a roupa rasgada, arrancada pela paixão, os corpos rebolam em todos os sentidos, insurgem-se contra o mobiliario, os sexos negam a separação, rebelam-se, agarram-se ainda mais. Delírio e exaltação, vigor e carnal,  os corpos fundem-se, recusam parar, cessar o movimento, o ritmo, de um arfar, de uma palpitação, de um exalar. Ondas violentas, como numa tempestade, mar profundo, tumultuoso, imparável, arrebatado e brutal.

Sinto nos meus lábios o seu travo salgado, delicio-me. 

Cada Lugar Teu


Fogo

Um olhar profundo, tão profundo que anseia explorar a intimidade, quase intimidante, mas hipnótico, inebriante e fogoso, possessivo, ardente porque aquece desde dentro, espalha-se lentamente por todo o corpo, prazerosamente demorando-se primeiro nos lábios, tornando-os vivos, carnudos, ardentes, depois percorre o tronco, acariciando o peito, dançando, um misto de ballet, dança tribal, chamamento dos espíritos, culto de fertilidade, extasiante, arrebatador, segue lentamente passeando pelo ventre, beija o centro do mundo, o centro do corpo, a linha da vida. Este olhar acaricia as coxas, aperta as ancas, deixa as marcas de mãos impetuosas, rasga um canal suave ao afasta-las, um desfiladeiro profundo, um caminho misterioso, uma passagem estreita entre as montanhas, angustura. 

Ardor violento, fogo nascido da paixão, inquietude, satisfação, júbilo, delírio, folia da alma que magnetiza o corpo.   

02 abril 2011

Siren



Long afloat on shipless oceans
I did all my best to smile
'til your singing eyes and fingers
Drew me loving to your isle
And you sang
Sail to me
Sail to me
Let me enfold you
Here I am
Here I am
Waiting to hold you

Did I dream you dreamed about me?
Were you hare when I was fox?
Now my foolish boat is leaning
Broken lovelorn on your rocks,
For you sing, 'touch me not, touch me not, come back tomorrow:
O my heart, o my heart shies from the sorrow'

I am puzzled as the newborn child
I am troubled at the tide:
Should I stand amid the breakers?
Should I lie with death my bride?
Hear me sing, 'swim to me, swim to me, let me enfold you:
Here I am, here I am, waiting to hold you'

03 janeiro 2011

Sonho

Abraça o tronco da árvore e sente o espírito, sente o calor da pedra entrar no teu corpo, mergulha na nascente como se fosse um lugar líquido do teu corpo noutra vida. Mas os espíritos têm de ser reconhecidos para tornarem-se reais. Eles não estão fora de nós, nem inteiramente dentro, mas correm para diante e para trás entre nós e os objectos que fizemos, na paisagem que moldámos e na qual nos movemos. Sonhámos com todas estas coisas nas nossas vidas mais profundas e elas são nós próprios.