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19 novembro 2015

The End

Esta é a morte anunciada, o fim, o derradeiro momento. Este blog, que foi nalguns dos momentos mais negros da minha existência uma salvação, um grito sentido de dor, um pedido de socorro a nenhures, um  arrancar do peito os demónios que sofregamente queriam resgatar a minha alma, mas agora já deixou de fazer sentido. Porquê gritar se ninguém quer ouvir a dor, porquê dizer que estou a morrer, se todos viram a cara, passam impunes, desligados e mais dedicados às suas existências, possivelmente considerando estas palavras lirismos sem sentido ou dramas de uma mente delirante. Todos temos a nossa vida, o nosso tempo, as nossas coisas, que garantidamente são importantes, nos consomem, nos preenchem e por vezes são assobarbantes. Não nego, nem sou ninguém para censurar. Absolutamente ninguém.

Sou uma gota de sangue derramada, em breve uma nódoa que pode ser limpa num único acto. 

Este blog morre aqui, agora, para se esfumar  nesta coisa fátua que é o ciberespaço.

Deixo-vos uma despedida sofrida, desejando que seja um dia recordado com carinho...

12 novembro 2015

Si tú me olvidas

Quiero que sepas
una cosa.

Tú sabes cómo es esto:
si miro
la luna de cristal, la rama roja
del lento otoño en mi ventana,
si toco
junto al fuego
la impalpable ceniza
o el arrugado cuerpo de la leña,
todo me lleva a ti,
como si todo lo que existe,
aromas, luz, metales,
fueran pequeños barcos que navegan
hacia las islas tuyas que me aguardan.

Ahora bien,
si poco a poco dejas de quererme
dejaré de quererte poco a poco.

Si de pronto
me olvidas
no me busques,
que ya te habré olvidado.

Si consideras largo y loco
el viento de banderas
que pasa por mi vida
y te decides
a dejarme a la orilla
del corazón en que tengo raíces,
piensa
que en ese día,
a esa hora
levantaré los brazos
y saldrán mis raíces
a buscar otra tierra.

Pero
si cada día,
cada hora
sientes que a mí estás destinada
con dulzura implacable.
Si cada día sube
una flor a tus labios a buscarme,
ay amor mío, ay mía,
en mí todo ese fuego se repite,
en mí nada se apaga ni se olvida,
mi amor se nutre de tu amor, amada,
y mientras vivas estará en tus brazos
sin salir de los míos.

I want you to know
one thing. 

You know how this is: 
if I look 
at the crystal moon, at the red branch 
of the slow autumn at my window, 
if I touch 
near the fire 
the impalpable ash 
or the wrinkled body of the log, 
everything carries me to you, 
as if everything that exists, 
aromas, light, metals, 
were little boats 
that sail 
toward those isles of yours that wait for me. 

Well, now, 
if little by little you stop loving me 
I shall stop loving you little by little. 

If suddenly 
you forget me 
do not look for me, 
for I shall already have forgotten you. 

If you think it long and mad, 
the wind of banners 
that passes through my life, 
and you decide 
to leave me at the shore 
of the heart where I have roots, 
remember 
that on that day, 
at that hour, 
I shall lift my arms 
and my roots will set off 
to seek another land. 

But 
if each day, 
each hour, 
you feel that you are destined for me 
with implacable sweetness, 
if each day a flower 
climbs up to your lips to seek me, 
ah my love, ah my own, 
in me all that fire is repeated, 
in me nothing is extinguished or forgotten, 
my love feeds on your love, beloved, 
and as long as you live it will be in your arms 
without leaving mine. 


11 novembro 2015

A manhã morna, que tem o dia frio e que deixa a noite quente.


Despertar, abrir os olhos, vislumbrar o tecto branco, fantasiar nuvens tênues a dançarem dentro do quarto, a cama amarrotada, os sonhos violentos que deixaram o meu corpo quente, sôfrego com a realidade lentamente a sobrepor-se á fantasia, ao êxtase do sonho enquanto as pálpebras despertam. A luz fere o espírito e o Sol despe os lençóis, deixando o corpo a temperar. São 7 e 30, o despertador ainda descansa, combinamos cumprimentarmo-nos às 9. Deixo-o dormir mais um pouco. Nas não resisto e acordo-o para saber tudo o escondeu durante a noite, o quamto o mundo girou, quantos palreiaram sem sentido, sem substância, imbuídos nas suas banalidades, quantos estão acordados, tal como eu, quantos partilharam os meus suados delírios. Quantos partilham os meus pensamentos, sentem o mesmo Sol crescente a retemperar os seus corpos, acordando da ilusão. 
A água tépida a adensar-se, a vigorar-se, corre pelo corpo cru, arrancado da pele as fantasias ou os fantasmas da noite anterior, escorrem, debatendo-se, porque não querem ser esquecidas, porque lutam deseperadamente por viverem na minha pele, entranhando-se violentamente na carne. Resticios de sonhos que são estropiados do meu ser, caindo por terra, sendo levados pelo rio do desapontamento, húmus peçonhento que conspurca o sonho, fuliguem, lama putrefacta que desce corrente abaixo. Despertar. Sentir a vida a regressar, o corpo a tilintar, eletrificado, vivo e lavado do negro de uma noite mal dormida, mais uma das muitas que já passaram, sem saudades e sem expectativa, mesmo sabendo que quado a lua regressar, também com a sua luz negra regressam os demônios. Despertar, despertar e despertar. Roupa fresca, lavada, pura, armadura embevecida, reflexo do ego.
Passo ante passo, andamento, reaprender o balanço, manter o equilíbrio sob a circunferência da Terra, ânimo, estímulo, com a luz do dia a degustar demoradamente o meu rosto, saborear com gusto os raios de Sol. Desperto.

Neste hiato tenho o espírito lavado, o corpo restabelecido e o estômago confortado. Os ponteiros saltitam, chamando a si a minha atenção, terá o tempo sido dobrado? O dia nasce, é longo, intenso e promete emoção. Os lábios explodem num sorriso. Os olhos não conseguem conter um brilho, intenso, ardente. Todo o corpo vibra de tensão. Prazer. Desperto.

Manhã agitada, agenda recheada, muita coisa, muita gente, rostos deformados com a velocidade dos ponteiros, alguns olhos brilhantes, outros tantos corpos formosos, tensão, o sangue pulsa vigorosamente, a mente gesticula de prazer numa dança eufórica. O Sol está alto, brilha sobre mim. Retemperar.

Voou, time lapse de eventos, pessoas tantas, pouco conteúdo, rostos amorfos, palavras ocultas. Tenho a boca dormente, a língua cansada e o cérebro implodido, mirrado de tanta falsidade, de tanto fingir ser, viver, de tanta mentira acreditada verdade. Retemperar. Preciso urgentemente de um estimulante, mas para já uma bebida fresca terá de servir. Fresca, para despertar os sentidos, um mergulho vigoroso numa lagoa perdida no bosque, escondida do mundo, protegida por uma neblina cega. Só minha. Para meu prazer, delícia egoísta que não partilho com ninguém. Sabe bem, sinto o corpo a crescer e o espírito a despertar.

Olho em volta, tudo é estranho, feio, putrefacto, janelas escuras, sujas, fachadas cobertas pelo tempo, idosas, decrépitas, de cores indecifráveis, calçada curruspucada, pisada por sombras fugidias, fantasmas numa cidade abandonada, esquecida do mundo, longe da alegria, desprovida de qualquer réstia de brilho ou felicidade. Um negro que consome, absorve-me. Uma nuvem, augúrio de tempestade e pestilência. Não sou daqui, não pertenço, não quero mais, recuso ser transformado numa das tantas sombras que palminhas estes esconços. Quero viver! Quero algo diferente e longe disto, deste cheiro de morte, deste pântano infernal que suga, mastiga e consome tudo, toda a luz, toda a emoção, toda a vida. O fogo a ser soprado por um vento bafiento. Fujo, corro, deseperadamente, desenfreadamente. 

Abrir os olhos, escancarar e avidamente procurar. Vou retirar-me, rearmar-me, lavar os olhos, o corpo e a alma. Ânimo, o dia ainda caminha. 
Depois de mais um banho, agora breve, para retirar o sarro, diluir as teias dos fantasmas com que esbarrei. Água quente, limpa, branca, lâmina que raspa o musgo morto. Pureza.

A noite aproximar-se suave com promessas de lascívia, ardor quente,  com perfumes inebriantes, com corpos femininos que exalam desejo, prazer, tensão e tesão. Dançam os olhares, tiram-se medidas, projetam-se lábios carnudos, arrebitam-se os rabos, retesam os mamilos, sente-se o calor húmido dos sexos, o desejo e a luxúria. A fricção dos corpos eletrifica o ar pesado, o hálito quente e doce inebriante promete orgasmos. Música sincopada, ofegante, mosto doce a correr pela garganta depois de ter beijado secretamente os lábios, olhar vivo, brilhante, libidinoso, concernente aos sentidos, fome, apetite, concupiscência, gozo.  Mãos irrequietas, bocas ávidas, ansiedade deliciosa, pernas que resvalam no corpo abrasador a procurar o rubro, delicia-se demoradamente, intensamente, febrilmente. Cantos escuros que ocultam as formas sem conseguir esconder a tesão, o calor exalado, o cheiro lascivo, a sensualidade que transpira. Rebolar pelas paredes, roçar em todas as arestas, acutilante, dormentes. O frio da noite não se sente, os corpos fumegantes, procuram qualquer recanto, as mãos esmagam-se e negam o desprendimento. Luz ambar de um qualquer velho candeeiro mostra os olhos semicerrados, a boca pequena, ávida, tempestiva, cabelo denso, ruivo, chamas,  invocação de prazer. Vozes distantes, luzes ténues, cidade ausente. O fogo arde endiabrado, escorre sensualidade, deleite, delícia, gozo.  A casa não está distante, voam ébrios de desejo, sedentos, esfomeados de essência, famintos de vida. Todos os passos retemperam o prazer, esfaimados. A porta fechada serve de cama, o corredor, o chão e as paredes de alcova, a roupa rasgada, arrancada pela paixão, os corpos rebolam em todos os sentidos, insurgem-se contra o mobiliario, os sexos negam a separação, rebelam-se, agarram-se ainda mais. Delírio e exaltação, vigor e carnal,  os corpos fundem-se, recusam parar, cessar o movimento, o ritmo, de um arfar, de uma palpitação, de um exalar. Ondas violentas, como numa tempestade, mar profundo, tumultuoso, imparável, arrebatado e brutal.

Sinto nos meus lábios o seu travo salgado, delicio-me. 

Cada Lugar Teu


Dualidade



10 novembro 2015

Êxtase

As curvas da vida são linhas entre o ponto a e b que escolheram ser mais interessantes do que uma linha recta. Interessantes, mas também tortuosas, por vezes dolorosas, outras dramáticas, sedutoras, pungentes, arrebatadoras, profundas, extasiantes, tortuosas, mas sempre, sempre interessantes.
A inevitabilidade de sofrermos enquanto caminhamos por entre as curvas, mantendo o corpo e o espirito em equilíbrio, quando as pendentes nos empurram para as bermas, que pode ser um colchão de erva tenra, suave e tentadora, outras ninhos de espinhos, campos de silvas escarnosas, mas atrapalha e vacilamos para mantermos-nos na estrada, a mesma que queima a planta dos pés, ensanguentando, criando uma crosta  frágil  que quebra a cada passo dado, deixando inevitavelmente a nossa pegada esborratada num vermelho escuro no pavimento, um borrão indecifrável, inteligível para quem segue no nosso encalço. 

A dor está sempre presente! Tal como o prazer e a beleza caso haja perseverança e determinação, transfigurando um corpo fustigado pelo palmilhar arqueado, num pairar, leve, superficial, delicado e etéreo. Como uma brisa que baila entre o fresco do orvalho que escorre sobre o musgo e troncos torturados sob as sombras leves numa manhã de inverno e o calor momentâneo, explosivo e ardente no despertar de um raio de Sol. 

Curvas feitas de socalcos rasgados na pele, por onde escorre um sangue quente e borbulhante, que enquanto desce, transbordando por fora, rasgando ainda mais as feridas abertas pelo tempo, empurrado pela gravidade e pelo destino, perde vigor, luz e intensidade, transformando-se numa seiva indiferenciada, um mosto escuro que cai por terra, semente inféril, desprovida de vida.

Curvas quentes, intensas, fogosas, como o corpo premente de uma mulher em êxtase, um palpitar, tremor que  tem o poder de criar mais curvas, pelo prazer, pela intensidade daquele momento, uma palpitação sonora, um arfar quente, um suspiro, ardor e prazer que  invadem o corpo desde dentro, um orgasmo de vida, o fogo  que consome os sentidos, levando-nos ao rubro, incendiando a nossa alma com uma centelha ardente, um fogo fátuo que dança em delírio frenético.   

07 agosto 2011

Κάθαρσις


Dizem que devemos ler mil livros antes sequer de termos a dignidade para escrever algumas linhas para apreço de outros. Pois acredito que todo o conceito, apesar de coerente, é erróneo! Acredito que faz todo o sentido usarmos o verbo para expandirmos a voz e alma, usarmos o verbo como extensão do arquear da língua para produzir sons, um espelho finamente polido, numa sala sem portas, para o qual podemos sem receio olharmos para dentro de nós, para vislumbrar a verdadeira cor do nosso, para ter a oportunidade de abraçar a etérea forma do nosso ser.

Creio que todos gostariam de ter oportunidade de traçar a linha condutora da sua vida, possuir a pena mágica que permite reescrever nas entrelinhas do nosso destino, alterando-o, ou até conseguir que a próxima pagina fosse branca, para sermos nós os autores da seguinte prosa. Somos todos constituídos da mesma matéria e movemos-nos com a mesma energia, ligados a todos os outros elementos que formam este belo Universo.

Como lavar o corpo demoradamente com sal grosso até a carne sentir-se viva, afogarmos-nos no Oceano e sentirmos o cheiro da maresia pela primeira vez numa lufada de ar, sentirmos o queimar do suor quente a escorrer pelo ventre enquanto fazemos amor ou o torpor embriagado de um orgasmo, o som surdo dos corações e corpos ao palpitarem em uníssono, sob o arfar quente e salgado da paixão.

Estou cansado de tudo e de muita coisa, necessito de cair para ter oportunidade de levantar-me, ou apenas ficar deitado a vislumbrar as constelações de olhos bem abertos, esquecer as pessoas e o mundo, viajar para longe para poder descobrir as cores dos pequenos momentos, arrancar as raízes e roçar os ramos podres para poder enxertar novos galhos cheios de vida. Preciso largar tudo para não mais sentir falta.


Esta é a minha despedida, eventualmente um até breve, ainda não sei, ainda não está escrito, ainda não foi lido, mas também não será importante!

Todas estas palavras sabem a cinza escura, secam-me a boca, vou finalmente  calar-me...